O Rio em Guerra Civil

No dicionário carioca as palavras que estão na boca do povo passam longe das que fizeram o Rio de Janeiro um dos destinos turísticos mais visitados do Brasil: menor, arrastão, roubo, linchamento, insegurança e medo.

Sim, o Rio já foi lindo, já foi bossa, já foi um espetáculo e hoje é o cenário de uma guerra civil, resultado de uma sequência de governos incompetentes, políticas de segurança equivocadas e da falta de visão de longo prazo.

Visito a cidade semanalmente por conta de compromissos profissionais e confesso que não faço a pé um trajeto pequeno entre o trabalho e o aeroporto, cerca de mil metros. O medo de levarem minha mochila e ser abordado, me faz tomar um táxi.

Acompanho as notícias do Rio com grande assiduidade e venho notando uma mudança no tom da violência. O que antes vinha por parte de uma população marginalizada e carente de investimentos sociais, hoje já pode ser percebido na classe média burguesa. Escrevo o “burguesa” sem incluir no termo qualquer tipo de preconceito, me atenho mais ao indivíduo que vive na cidade, o burguês.

O que me traz essa sensação é a leitura de comentários de colegas publicados em redes sociais e também nas matérias dos veículos de mídia. De uma hora para outra, pessoas que sempre pareceram equilibradas começam a escrever coisas como “devemos mesmo dar o troco e matar esses moleques da periferia”, “é isso aí, hora da revanche”, “quem matar um criminoso deve ser herói” e outras bravatas do gênero.

Me questiono se esse tipo de comentário é o início de um comportamento sociopata ou se é apenas um desabafo corriqueiro, coisa de quem está cansado da ausência do poder público.

O cidadão comum, aquele tradicional, que entra e sai do trabalho em horário regular, que se esforça para pagar um plano de saúde e não depender do governo, que passa mais tempo no trânsito insano do que com os filhos, essa pessoa, está a um passo de se tornar um criminoso.

Em uma das matérias que li, um ônibus foi interceptado por um grupo de jovens, revoltados com a onda de arrastões e que decidiram vingar-se dos delinquentes, fazendo uso da lei de Talião, popularmente referenciada como “olho por olho, dente por dente”.

O problema com a aplicação desta lei é o que vem a seguir. Se a sociedade burguesa decide que deve agir com rigor para ter seu senso de justiça satisfeito, mesmo que para isso seja necessário passar por cima das leis, ela também deve ser combatida, pois estará cruzando a linha que existe entre o cidadão e o criminoso.

O Estado terá um problema ainda maior para resolver, que era praticamente originado pela falta de políticas públicas de inclusão social.

Antes as soluções consistiam em levar condições e oportunidades de geração de renda e qualidade de vida para áreas de risco social.

No Rio era preciso primeiro frear a criminalidade e desarmar os traficantes. Isso foi feito com a implementação das UPP’s. Contudo, algo deveria ter sido feito para dar suporte a população e daí vem o fracasso da operação.

Agora, com a classe média revidando a violência que sofre, transformando-se em mais uma variável da equação da criminalidade, há um elemento novo a ser tratado: o justiceiro burguês.

Se o governo não conseguiu resolver o problema com o marginal, não posso crer que saberá como lidar com o justiceiro.

Tanto Pezão, atual governador, e Eduardo Paes, prefeito da cidade, falharam e o resultado está aí, aos olhos do mundo, de forma escandalosa. O Rio — palco das próximas olimpíadas, é bom que se lembre —, é o retrato de uma guerra civil entre dois lados que antes estavam distantes e hoje estão cada vez mais perto.

Mas tudo bem, teremos obras muito bacanas na cidade.

E as pessoas? As pessoas que se matem.

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About Marcelo Vitorino

Estrategista de comunicação digital, que atua como consultor para instituições públicas, privadas e de terceiro setor.

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