Manifestações em São Paulo expõe ignorância dos dois lados

As manifestações atrapalhadas que estão acontecendo em São Paulo, onde um grupo insuflado por motivos que desconhece entra em combate com uma força policial mal preparada e raivosa, que tenta manter a paz e a ordem usando de violência desmedida, demonstra o quanto nossos revolucionários são ignorantes a respeito do processo político brasileiro e como todo esse movimento pode não servir para nada.

Os centavos da discórdia

Confesso que nos primeiros momentos fiquei confuso. Por que raios essa bagunça toda? Por R$ 0,20 em cada passagem? Não fazia o menor sentido.

Aliás, se levarmos em consideração a enorme quantidade de bandeiras da CUT presentes no primeiro dia de manifestação, faz menos ainda. Os trabalhadores, principalmente os sindicalizados, serão os menos impactados por qualquer aumento nas tarifas, visto que os empregadores é que arcam com a maior parte dos custos do transporte público.

Alguém, desempregado, que precisasse tomar duas conduções por dia útil, teria um custo adicional de R$ 8,80 no seu gasto mensal. Muito menos do que recebe, se for elegível, do Bolsa Família (valor mínimo de R$ 32,00).

Claro que alguém pode falar que os mais pobres deixarão de comer para pegar condução devido ao alto preço dos alimentos. Fosse outro lugar que não São Paulo, eu concordaria, porém a cidade conta com 17 estabelecimentos que fornecem um bom almoço que custa R$ 1,00 e café da manhã custando R$ 0,50.

Em rede nacional o comentarista Arnaldo Jabor falou sobre isso. No fundo o que queria era alertar para a votação da PEC 37, que proíbe o ministério público de promover investigações, mas parte da população preferiu dar atenção apenas para o trecho onde o jornalista questiona a violência gerada por míseros vinte centavos.

Em uma coisa concordo com Jabor, não são R$ 0,20 o problema.

O preço da passagem do transporte público realmente está alto?

Boa parte das pessoas se queixa do preço cobrado pelo transporte público e usa a inflação para defender seu ponto de vista.

De fato, se analisarmos apenas a inflação estamos sendo roubados! Em 1994 o preço da tarifa de ônibus custava R$ 0,50. Se considerarmos a alta da inflação de lá para cá (332%) devemos concluir que o preço honesto para a passagem atual seria de R$ 2,16 (veja infográfico publicado no Terra), ao invés de R$ 3,20. Ou seja, o governo safado está nos levando mais de R$ 1 por passagem.

Contudo, não é a nossa inflação que manda na correção de bens, produtos e serviços do resto do mundo. Nisso eu posso incluir o preço do petróleo, base do diesel utilizado pela frota de ônibus, assim como de uma série de componentes, como os pneus.

Enquanto a nossa inflação mais do que triplicou o preço das coisas, o preço do barril de petróleo teve uma escalada muito maior, passando de R$ 14 em 1995 para R$ 201 em 2013.

Não precisa ser um gênio para notar que, apesar de ter qualidade sofrível, o preço cobrado pelo transporte público está longe de ser alto.

Qual o objetivo dos manifestantes?

Um ponto muito importante sobre manifestações políticas é que elas precisam ter um objetivo claro. De nada adianta tomar as ruas da cidade sem saber para onde se quer ir e o que você quer ter da parte cobrada.

A presença da CUT no início mostrou que a intenção era que a bagunça servisse de palco para críticas ao governo do PSDB. A CUT nunca, de forma alguma, estaria contra um governo do PT. Não se iludam! Prova disso é a “mudança” de comportamento do prefeito em “aceitar” dialogar com os manifestantes. Isso é uma clara intenção de jogar a culpa do aumento no governo do estado.

Quero deixar claro que acho o atual governo do estado um dos piores da história de São Paulo. Não o defendo em hipótese nenhuma. Aliás, o PSDB perdeu meu apoio quando promoveu a aprovação automática na educação pública.

Para escrever esse artigo pesquisei bastante, mas não encontrei os líderes desse movimento. Então, não consegui entender o que o movimento quer. Repudiar os constantes abusos sofridos pela população? Seria isso? Mostrar aos governantes que o povo não aceita mais pão, água e circo?

Pode ser. É muito legal poder manifestar indignação! Eu adoro isso, dos chatos, sou o mais chato que conheço. Reclamo de tudo. Confesso que me satisfaz!

O movimento me parece ser apenas um ato de revolta. Não mais que isso.

A liberdade de expressão e o direito de ir e vir

Desculpe o transtorno, estamos mudando o país

Desculpe o transtorno, estamos mudando o país

O problema não está no conteúdo, mas na forma equivocada e na proporção que está tomando. Bloquear ruas da cidade não é um sinal de repúdio aos governantes. É sim, sinal de desrespeito aos demais munícipes.

Sou contra qualquer manifestação na Avenida Paulista, não importa se é Parada Gay, Marcha para Jesus ou qualquer outra coisa. A Paulista é a principal ligação com boa parte dos hospitais da cidade. De forma alguma, sob argumento algum, deveria ser bloqueada. É desumano.

Nos últimos dias, enquanto tentava chegar em casa, fui impedido por um grupo de manifestantes que bloquearam a via pública. A constituição garante o direito da liberdade de expressão, mas também me garante o direito de ir e vir.

Claro que agora serei rotulado de “elite branca de olhos claros”, afinal, só porque eu comprei um carro e paguei impostos altíssimos para ter um, faço parte da elite. Dane-se o quanto eu ralei. Não tenho o direito de chegar em casa. Ah, sou um burguês de merda por reclamar disso enquanto o povo muda o mundo.

Os excessos dos lados

Obviamente, como em todo movimento, há sempre um grupo de idiotas que acaba tumultuando tudo, não poderia ser diferente agora.

Cinegrafista mostra o dedo médio para a polícia militar

O vandalismo promovido por uma pequena porção dos manifestantes foi elevado ao máximo pela cúpula que toma as decisões na Polícia Militar. Esta tomou uma decisão equivocada em chamar a tropa de choque para “combater” os manifestantes e por aí entramos em outra questão.

A polícia militar não é apenas despreparada para lidar com situações como essa que está ocorrendo, mas também obedece a ordens sem pestanejar. Quando um superior manda desocupar um lugar, ela age da maneira com que foi treinada, com truculência e violência.

É nessa parte em que defendo a polícia. Os policiais militares são treinados para o combate ao crime, portanto, ao se depararem com uma manifestação política formada por um bando de jovens, não fazem a menor ideia do que fazer senão aquilo para o que foram treinados.

O erro não é dos policiais, mas sim de quem tomou a decisão de destacá-los para a tarefa. Ao colocar um policial militar despreparado diante de manifestantes que não nutrem simpatia pela corporação, é óbvio que só podia dar merda. Um blog fez uma seleção de vários momentos onde a polícia passou dos limites. Eu resolvi ilustrar com uma breve declaração de uma jornalista.

Em ambos os lados não há somente santos, nem somente demônios. Os policiais que abusam da força devem ser punidos de forma exemplar, assim como, os manifestantes que depredarem patrimônio público e promoverem atos de vandalismo, bem como, furtos ao comércio também.

Os manifestantes deveriam seguir o poder

Parar o trânsito é uma ideia idiota, não só porque revolta as pessoas que estão nele, mas também porque é altamente ineficiente. Perda de tempo.

A democracia brasileira é baseada em três poderes: legislativo, executivo e judiciário. É realmente uma pena que boa parte da população só sabe isso deles; os nomes.

Fica muito claro o tamanho da ignorância quando as manifestações acontecem. Se a população quer mudar o jogo, deve mudar as regras. Não adianta apenas pressionar o poder executivo, no caso, o governador e o prefeito. É preciso ir aonde as leis são feitas.

Os manifestantes devem se organizar em frente à câmara de vereadores, na porta da assembleia legislativa ou no congresso. Enquanto a manifestação ocorre nas vias públicas, incomodando quem não tem nada a ver com isso, os políticos estão muito tranquilos em seus gabinetes.

Esse é um dos motivos que me faz crer que essa bagunça é motivada por algum grupo político. Não posso acreditar que todo mundo seja ignorante e não perceba que o local para se conquistar mudanças é outro. Sério mesmo que ninguém se ateve a esse ponto importantíssimo?

Ao contrário daquele ocorrido com os estudantes na USP, a luta agora é justa, há representatividade coletiva, basta apenas se organizar como movimento, conquistar mais apoios de lideranças comunitárias e cobrar os representantes certos.

Cobrem a redução dos R$ 0,20 se desejarem, mas aproveitem e cobrem também as reformas! A reforma política (voto distrital, fim do voto obrigatório, financiamento público de campanhas) nos dará melhores políticos. A reforma tributária nos dará poder aquisitivo e a reforma previdenciária evitará o caos nas contas públicas.

Estou escrevendo algum absurdo?

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About Marcelo Vitorino

Estrategista de comunicação digital, que atua como consultor para instituições públicas, privadas e de terceiro setor.

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