Deixe morrer…

Deixe morrer porque é preto. Porque é pobre. Porque é favelado. É assim que o pensamento começa. Depois se fortalece, cria raízes e prossegue.

Não vale a pena investir em educação, em criar um cenário favorável para o desenvolvimento do excluído. “Excluído” é um bom termo, mas precisa de legenda para o ignorante.

O ignorante acha que não exclui o excluído ao não incluí-lo. Acredita que o sujeito faz parte da subclasse porque escolheu assim. “Se ele realmente quisesse, procuraria trabalho e não viveria de bolsa família, dos meus impostos”.

Esse é um pensamento típico e obtuso de quem, mesmo supostamente letrado, escolhe ser ignorante. Nesse ponto, é muito pior do que o excluído, que não teve acesso a uma boa alimentação, à oportunidades, a uma vida “normal” e, por esses motivos, faz “escolhas erradas”.

Escolhas erradas. Também é um bom ponto para reflexão. Diante de um cenário caótico proporcionado pela fome, pela falta de civilidade, pela ausência de pais afetuosos e também pela falta de políticas públicas para os excluídos, o que é uma escolha errada? Qual é o cenário de alguém que sai de casa para comprar pão e na calçada de casa encontra alguém morto, com o corpo lá há horas esperando ser recolhido pelo IML?

Muitos de nós, que batalhamos, que tivemos oportunidades e as aproveitamos, tornando-nos parte de uma parcela pequena da população capaz de redigir e interpretar um texto como este, se fossemos colocados no mesmo cenário, teríamos optado por ficar atrás de um balcão, recebendo ordens de alguém despreparado, aguentando desaforos ou teríamos virado empreendedores do crime em busca de uma vida melhor?

Claro que a hipocrisia que há em cada um pode responder a pergunta acima com um arroubo de moral e bons costumes. “Eu nunca seria bandido, isso é falha de caráter, quem se mete no crime não presta, nasceu ruim e vai morrer ruim”.

A falha de caráter é um ótimo argumento. O gênio que pensa assim entende que a pessoa é criminosa porque lhe falta caráter e não porque lhe faltam oportunidades reais.

Sobre caráter também cabe uma reflexão interessante. Quantos de nós já cometemos pequenos delitos e crimes de baixa gravidade? Melhor seria perguntar quantos de nós não o fizemos. A lista seria infinitamente menor.

A pessoa que bebe acima do limite legal para dirigir e põe a vida dos outros em risco é tão melhor do que aquela que pratica um homicídio? No momento em que ela entra no carro, sabendo de sua embriaguez e da redução de seus reflexos, ela não assume o risco de cometer um homicídio? Claro que não há a intenção de matar, mas há displicência com a vida alheia.

O sujeito que oferece dinheiro para o policial, quando é autuado, também não é um corrupto como os piores políticos do país? Na cabeça do ignorante, provavelmente não. O que faz o corrupto é o tamanho da corrupção, não é o ato em si. Como se fosse diferente roubar uma bala na padaria ou um banco. Não é. Roubo é roubo.

A maior parte das pessoas que julga e condena os excluídos não passa por um pente fino impune. Em resumo, se fosse por falha de caráter, poderíamos construir dez vezes mais prisões e ainda assim o sistema entraria em colapso.

Falta autocrítica ao ignorante. E falta também amor. O “deixe morrer” vem daí, não é só da ignorância. Vem do não querer que o excluído deixe de ser excluído. Se assim o for, imagine só, quem se prestará à limpar privadas, à recolher o lixo das ruas, à fornecer mão de obra barata? Deixe que vivam, melhor dizendo, que sobrevivam, contanto que não pensem.

Mais de cem anos após a abolição dos escravos, muitos brasileiros ainda não se libertaram do ranço escravagista. Ainda consideram que os demais só estão aí para servir-lhes.

A política básica é a repressão. A polícia não é truculenta à toa. Ela precisa ser. Ser não for, como ensinará ao excluído que ele não pertence a sociedade? Quem colocará essa linha imaginária se não for na porrada? A polícia cumpre seu papel e a perversidade dele não está nela, está em quem exige isso dela.

Assista o documentário “Notícias de uma guerra particular” e tire suas conclusões. Abaixo tem um trecho, uma entrevista com o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Hélio Luz, em que o entrevistador o questiona sobre o que ele seria se tivesse nascido no morro.

Neste ponto, o ignorante irá pensar que eu estou aqui defendendo bandidos, o PT ou qualquer outra bobagem parecida. Quando na verdade, estou o defendendo. Estou tentando fazê-lo parar de ser ignorante, mas confesso que tenho vontade de desistir.

Em uma matemática simples, os excluídos são mais numerosos que os ignorantes. Como vivemos em uma nação, os impostos são cobrados para pagar os investimentos para todos, mas basicamente pretendem melhorar as condições dos excluídos.

Sendo assim, quanto mais excluídos houver, mais impostos deverão ser cobrados. Temos dois caminhos básicos: exterminar os excluídos, assim como Hitler também o fez ou dar-lhes condições para que ascendam à sociedade.

Pois é, século 21 e além de escravagista, ainda há também quem pense no nazismo como uma solução inteligente.

Aqui, posso complementar o “deixe morrer” do início do texto e você verá que tenho razão. Deixe morrer porque é gay, porque pensa diferente, porque tem sotaque nordestino, porque é feio.

O conflito de classes não se resolve com mais exclusão e nem com medidas imediatistas, será preciso um esforço maior e o primeiro passo está no entendimento do problema. A questão não é igualdade, é equidade de condições, como afirma o economista Eduardo Gianetti.

Acredito que o para o excluído há esperança caso encontremos maneiras de melhorar o ambiente em que vive, dando condições reais de empreender, de ter uma família saudável, mas tenho muitas dúvidas se devemos esperar algo do ignorante.

No lugar deles, eu provavelmente pensaria “deixe morrer porque se não aprenderam o que vieram fazer aqui até agora, não aprendem mais”, porém prefiro dar crédito, talvez eles só precisem de algo que lhes faça parar e pensar que estamos todos no mesmo barco, quer gostem ou não e se não mudarmos as regras o conflito social será inevitável.

No fim do jogo, os peões e o rei voltam para a mesma caixa. Até mais.

PS. Recomendo assistir o filme “O Preço do Amanhã”. Segue trailer abaixo.

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About Marcelo Vitorino

Estrategista de comunicação digital, que atua como consultor para instituições públicas, privadas e de terceiro setor.

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