Do crime ao empreendedorismo

Em grandes centros é raro encontrar alguém que nunca teve um contato direto ou indireto com um criminoso. Você, um irmão, primo ou conhecido já devem ter sido vítimas de um crime, mas pode ficar tranquilo, isso é “normal”.

Os programas “jornalísticos” vendem desgraças urbanas diariamente e a população acaba achando que tudo é normal. Quando alguém só leva seus pertences e você tem a sorte de não sofrer nenhum tipo de dano físico, acaba ouvindo algo como “Pelo menos não te fizeram mal, você compra outro carro/relógio/celular”. Como assim, não te fizeram mal?

Fizeram sim! O bem material que foi embora não é nada comparado a perda da sua noção de segurança. Enquanto um indivíduo aponta uma arma para você, por menor ou mais fraco que ele pareça ser, naquele momento sua dignidade vai embora enquanto você se sente um nada. Para a sua infelicidade, outro pensamento acontece: o de vingança.

Você passa momentos, que podem durar semanas, remoendo a cena, pensando em como deveria ter reagido e também nas diversas formas de tortura que submeteria seu agressor caso tivesse chance. É, meu amigo, um crime quase o torna outro criminoso. Só lhe faltou a oportunidade. Um crime só acontece assim, com motivo (você tem), com meio (depende do momento) e oportunidade.

Eu também já passei por isso, mas ao invés de entrar nesse cenário caótico, percebi que combater o criminoso individualmente é tão útil quanto servir gelo no Alaska. É preciso entrar nas entranhas da essência do crime e entender como ele deforma o indivíduo para poder interromper o processo.

Os mitos a respeito do crime

Nenhum individuo com mente saudável nasce e cresce pensando em se tornar um assaltante ou traficante. Fora o problema do vício em entorpecentes, que é uma questão de saúde pública, o que faz alguém tomar a decisão de romper com a sociedade e cruzar a fronteira do lícito?

A distorção social

Ao refletir sobre o problema, o primeiro pensamento que temos é que o crime é originado pela distorção social. Bobagem! Se fosse assim, somente a camada mais pobre da população seria criminosa. Segundo pesquisa interna da antiga FEBEM, apenas 4% dos internos vinham de uma casa de classe muito pobre. Cerca de 60% tinham origem na classe média ou classe média baixa. Sem contar que 3% vinham de condições excepcionalmente boas.

Talvez você não tenha feito a comparação, mas na FEBEM, instituição para menores que praticaram delitos, a quantidade de jovens muito pobres é quase equivalente a de jovens abastados.

Família

O segundo raciocínio é o da falta de família. O jovem entra para o crime porque não tem pai nem mãe. Óbvio!

Para minha surpresa, na mesma pesquisa, apenas 19% não morava nem com pai e nem com a mãe. A maioria (51%) morava apenas com a mãe. Talvez, pelo fato da mãe ficar sem o companheiro e assumir a posição de chefe da família, a tendência ao crime tenha sido acentuada. Mesmo assim, não pode ser levada em consideração como fator preponderante.

Falha de caráter

Bom, não havendo problema na distorção social e nem na família, o criminoso só pode ser fruto da falha de caráter. É um mau elemento e ponto final. Nasceu torto!

Pode ser. Não tenho como fazer uma análise psicológica, mas para contrapor a afirmação acima decidi utilizar mais um dado da pesquisa: a reincidência. Se o sujeito tem falha de caráter, é claro que vai reincidir no crime, pois caráter nem porrada corrige, aliás, nunca vi ninguém ficar melhor levando porrada.

Os números mostram que pouco menos de 30% dos internos eram reincidentes. Considero um percentual pequeno para justificar a tal “falha de caráter”.

Impunidade

Claro! Qualquer um sabe que nesse país o maior problema é a impunidade. É a noção dela que nos torna propensos ao crime!

O curioso é que nos últimos vinte anos a população carcerária cresceu 400%. Já temos a quarta ou quinta maior quantidade de pessoas presas no mundo.

Caro leitor, a impunidade nesse país só é de serventia a quem pode pagar por ela. O que não é o caso da maior parte dos criminosos. Estes vão para a cadeia ou para a vala. E eles sabem disso.

Quais as características do criminoso?

Após perceber que meus primeiros raciocínios estavam equivocados, parti para a composição do criminoso. Cheguei em alguns itens que resumirei aqui.

  • Busca de oportunidade e iniciativa – Sabem o momento certo para agir e possuem iniciativa para consumar o fato
  • Risco calculado – Entendem as chances de sucesso e de fracasso
  • Exigência de qualidade e eficiência – Precisam realizar as etapas com perfeição
  • Persistência – Entendem que nem tudo dá certo sempre e se mantém investindo
  • Comprometimento – Tem noção de grupo, com papéis e tarefas
  • Busca de informações – Pesquisam os alvos minunciosamente antes de atacar
  • Estabelecimento de metas – Determinam os resultados que devem ser obtidos em cada ação
  • Planejamento e monitoramento sistemático – Elaboram roteiros detalhados e flexíveis
  • Persuasão e rede de contatos – Sabem se relacionar com outros criminosos e contam com simpatia de populares
  • Independência e autoconfiança – Apesar de organizados, tem liberdade e confiança para tomar decisões

Recomendo assistir o documentário “Notícias de uma guerra quase particular” para entender melhor o que acontece do lado de lá da nossa realidade.

O crime e o empreendedorismo lado a lado

Ao analisar as características básicas que um criminoso pode ter, qualquer pessoa notará que são as mesmas necessárias para empreendedores, o que independe da classe social ou da sua origem. Jorge Paulo Lemann, Jorge Gerdau e Abílio Diniz, todos empresários bem sucedidos, com certeza as detém.

Há uma divisão imaginária sobre o que motiva pessoas à empreender: por necessidade ou por oportunidade. O primeiro grupo é levado a ter uma empresa porque perdeu o emprego ou outro problema, enquanto o segundo o faz pela natureza da sua essência.

Os empreendedores do segundo grupo costumam levar mais “sorte” do que os do primeiro por uma razão óbvia: precisam apenas trabalhar suas características de liderança. Os demais precisarão desenvolvê-las.

Quando levamos o perfil de liderança em consideração, chegamos a grandes nomes do mundo corporativo como os citados acima e no crime temos outros conhecidos como Marcola ou Fernandinho Beira Mar.

A questão que fica é um pouco indigesta: o que aconteceria se trocássemos Abílio Diniz com Marcola? Como ambos se sairiam no comando de suas operações? Agiriam muito diferente um do outro?

Ambos têm perfis muito agressivos frente aos negócios. Superaram as adversidades e lidaram com a necessidade de se adaptar ao meio.

Como a arte imita a vida, o cinema já nos brindou com essa possibilidade com o filme “Trocando as Bolas”, uma comédia bem divertida com Eddie Murphy, Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis. A tônica do filme está na troca dos papéis entre um jovem operador de bolsa e um trapaceiro de rua.

Na vida real já vemos pessoas dando outros rumos para suas vidas quando recebem uma alternativa a criminalidade.

A receita é bem simples: você pega uma jovem liderança, capacita, dá oportunidade e a acompanha. Em pouco tempo perceberá que o cenário dela mudou e que as pessoas que a rodeiam também são impactadas.

É preciso mais do que tapar o sol com a peneira achando que a repressão vai resolver o problema de segurança pública. É preciso ir à fonte. Abrir possibilidades para que esses talentos sejam melhor aproveitados e não se percam em meio a bagunça que o sistema perverso criou ao dar as costas para a realidade.

Segue abaixo as telas da minha palestra na Virada Empreendedora, realizada no final de abril.

Do crime ao empreendedorismo from Marcelo Vitorino
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About Marcelo Vitorino

Estrategista de comunicação digital, que atua como consultor para instituições públicas, privadas e de terceiro setor.

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  1. 10 perguntas sobre a maioridade penal - 22/05/2015

    […] a redução da maioridade penal, como solução para redução da criminalidade. Eu já fiz uma palestra relacionando o crime e o empreendedorismo e agora desafio você, que está começando a ler esse artigo, a esvaziar a cabeça dos […]

  2. Deixe morrer... | Pérolas Políticas - 03/07/2015

    […] A falha de caráter é um ótimo argumento. O gênio que pensa assim entende que a pessoa é criminosa porque lhe falta caráter e não porque lhe faltam oportunidades reais. […]

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