Alckmin sorri

Em toda eleição a população escolhe em quem votar sem se dar conta de como aqueles nomes foram parar na urna eleitoral, muitos votam no “menos pior”, outros no tal “voto de protesto” que já elegeu parlamentares como Tiririca, mas o que pouca gente se pergunta é como os nomes são escolhidos. Em 2008, Geraldo Alckmin quase não chega a disputar a prefeitura de São Paulo devido a um movimento político realizado.

As convenções partidárias que definem os candidatos e coligações, via de regra, são teatros onde cada ator sabe o seu papel e o roteiro a seguir. Raramente algo sai fora do planejado pelos caciques dos partidos, os delegados (com direito a voto) são orientados em qual chapa votar. É a democracia, de um jeito estranho, que impera nas instituições partidárias.

O início da parceria Serra-Kassab em 2004

Voltarei ao início de tudo para que fique mais fácil compreender os fatos que ocorreram. Em 2004, José Serra (PSDB) precisava de um vice para compor sua chapa que concorreria a prefeitura, as opções mais fortes eram Lars Grael e Gilberto Kassab, ambos do Democratas (ex-PFL).

Teoricamente, entre um campeão olímpico (que à época era secretário da Juventude, Esporte e Lazer pelo governo Alckmin) e um deputado federal, a escolha seria óbvia, porém na política as regras são outras. Lars era um ótimo nome, mas tinha um perfil muito técnico, enquanto Kassab era conhecido por ser um excelente articulador político.

Serra e Kassab venceram a disputa pela capital em 2004, porém, mesmo após ter assinado compromisso registrado em cartório de que ficaria por 4 anos como prefeito, em 2006 Serra se candidata e é eleito como sucessor de Alckmin ao governo do estado. O vice assume, mas praticamente toda a equipe de Serra é mantida (subprefeitos e outros cargos de indicação).

A candidatura de Alckmin racha o PSDB em 2008

Em 2008, dois anos após sair do governo do estado, Alckmin decide que deveria ser o candidato à prefeitura pelo PSDB, rompendo a dobrada que antes fora feita com o Democratas.

O movimento causou muito constrangimento no próprio partido, pois como a base de Serra foi mantida, como seria a campanha? Alckmin criticaria o governo de Kassab, mesmo este sendo formado basicamente por membros de seu partido? Como ficariam os vereadores que contaram com o apoio do prefeito em seus projetos? Deveriam esquecer tudo o que foi feito e apoiar outro candidato?

Uma definição ficou clara: Alckmin não deveria ser candidato!

Como em uma ópera, em dado momento, 10 dos 11 vereadores encamparam uma campanha secreta contra o ex-governador, contando com o apoio de secretários e subprefeitos.

Estabeleceram que na convenção que aconteceria, haveria duas chapas, uma com Alckmin encabeçando (com vice apontado pelo PTB, no caso, Campos Machado) e outra com a indicação de um vice (Ricardo Montoro do PSDB) para compor com o candidato do Democratas, Gilberto Kassab.

O plano que “facilitaria” a diputa pela prefeitura

Durante três semanas as lideranças se reuniram para combinar o golpe. O plano era simples, bastava identificar quem, dentre os quase 1.300 delegados, poderia ser aliado e quem estava contra.

Como o voto não é obrigatório, bastaria garantir que os que apoiavam Kassab chegassem na Assembleia Legislativa no dia da votação.

Foram identificados quase 700 delegados e diversas vans foram programadas para busca-los em casa. Os números do levante não foram nada modestos: 100 seguranças, 40 ônibus para trazer “militantes”, 4 mil camisetas e 6 mil balões estampados com a chapa anti-Alckmin, 4 mil sanduíches e uma festa para 100 pessoas no Círculo Militar (fica atrás da Assembleia).

Tudo corria muito bem até o sábado que antecedia o domingo da votação. José Serra estava em Tóquio, no Japão, e retornou naquele dia.

A estratégia não contava com o recuo de Serra

Palácio dos Bandeirantes

Alckmin sorri…

Reza a lenda que Alckmin se encontrou com Serra e ameaçou disputar a eleição presidencial por outro partido. Diversas outras versões da reunião surgiram, mas o fato é que, após o encontro dos dois foi dada a ordem para que o golpe não fosse dado.

Como que num passe de mágica, todo o esquema foi desmontado. Naquele domingo o parque do Ibirapuera (em frente a Assembleia) recebeu a doação dos lanches e dos balões que foram encomendados.  As camisetas encaminhadas para entidades beneficentes do interior do estado.

A honra de Alckmin foi preservada. Tudo bem que com as lágrimas dos vereadores que, diante da atitude de Serra para se preservar, ficaram expostos e a maior parte sequer gravou programas eleitorais com Alckmin.

O problema foi tão grande que o líder da bancada do PSDB, Gilberto Natalini, se reelegeu como vereador por uma margem muito apertada.

Serra deu a mão a palmatória, mas não vendeu barato. Apoiou Kassab indiretamente, fazendo a campanha de Alckmin sangrar com falta de recursos.

Com o partido dividido, onde boa parte estava empregada por Kassab, com poucos recursos, com pouco tempo na televisão (metade do tempo do Democratas) e sem um bom time, o segundo turno não passou nem perto de Alckmin.

Quatro anos se passam e estamos em 2012. Com Serra candidato, partido dividido e dinheiro curto, Alckmin, do alto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado de São Paulo, sorri… Discretamente, mas sorri!

Até mais!

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About Marcelo Vitorino

Estrategista de comunicação digital, que atua como consultor para instituições públicas, privadas e de terceiro setor.

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