A gota que faltava. Por que agora?

Largo da Batata durante manifestações, foto de Cristiane Bomfim

Largo da Batata durante manifestação. Foto de Cristiane Bomfim

Li algumas explicações sobre o que motivou o surgimento e a manutenção das manifestações nas grandes capitais do Brasil e, como posso estar pensando uma grande bobagem resolvi compartilhar a minha opinião sobre elas. Uma bobagem individual é apenas uma bobagem, uma coletiva é uma teoria.

Vou excluir a turma politizada, oriunda de partidos políticos, e que quiseram ter sua fatia do bolo das manifestações porque acho que elas já não têm mais espaço nas manifestações.

O que sobrou? Um grande número de alienados? Representantes de sindicatos? Líderes de movimentos que lutam por reforma agrária? Moradores de rua e excluídos? Nada disso!

Temos uma revolução feita por jovens, sem vínculos partidários, de classe média, que têm entre 15 e 35 anos.

A grande maioria está entre 20 e 30 anos, não tendo, portanto, o menor contato com o que foi o movimento dos “caras-pintadas”. Ainda bem! Aquela garotada foi massa de manobra de deputados e de diversos grupos de poder que eram contra a parca distribuição de “recursos” do governo Collor. Muitos dos líderes estudantis daquela época estavam em folhas de pagamento de interessados no impeachment do presidente da república.

Os jovens de hoje são mais livres. Aliás, credito essa gota que faltava para o copo transbordar em três grandes fatores: o sonho da democracia perfeita; a falta de heróis acima de qualquer suspeita; o esmagamento da classe média.

O sonho da democracia perfeita

A democracia brasileira atual é um fenômeno recente, tivemos apenas seis eleições diretas que escolheram como presidentes Fernando Collor de Melo, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

No meio desse processo muita coisa aconteceu, mas uma coisa ficou muito clara: nossa democracia não é perfeita. As regras do jogo político acabaram proporcionando a manutenção do mesmo grupo político no poder, quando uma das premissas básicas é a rotatividade dos líderes.

Muito disso foi por causa do projeto de lei aprovado pelo congresso nacional que permitiu a reeleição de Fernando Henrique, de Lula e de qualquer político que deseja se manter no poder. Ainda bem que não aprovaram uma lei que permitisse o terceiro mandato, coisa que foi aventada para que Lula continuasse presidente.

A verdade é que vivemos uma democracia ditatorial. Só não percebe quem não quer. Tente você, um cidadão comum, se eleger. Verá que é a coisa mais difícil do mundo.

Eleições no Brasil beneficiam em primeiro lugar quem tem padrinho político, depois quem tem dinheiro ou fama e por último quem tem esquema com coisa errada. Geralmente a ordem é essa. Você não está entre as prioridades.

O resultado desse sistema é que praticamente não existem mais militantes partidários que não sejam pagos. A população demorou, mas se tocou. Talvez seja hora de adotarmos uma democracia semidireta como na Suíça.

A falta de heróis acima de qualquer suspeita

Boa parte dos jovens que engrossa as manifestações se acostumou à era dos escândalos políticos e isso gerou um descrédito muito grande para a classe política. Ninguém mais está a salvo.

Tivemos a primeira decepção com Collor, que era conhecido como “caçador de marajás”. Depois pesou sobre Fernando Henrique os acordos que fez para que a reeleição dele fosse aprovada. Um pouco mais adiante, Lula caiu em desgraça com o mensalão. Por mais que negasse o conhecimento do esquema montado embaixo dele, a classe média nunca acreditou em suas explicações.

Pelo que tudo indica a condenação dos réus do mensalão não vai estancar o corte aberto na reputação de Lula, pois o próprio também deverá ser investigado.

Vemos nas manifestações o reflexo dessa máxima, os manifestantes querem distância de qualquer tipo de envolvimento com partidos, repudiando a presença de bandeiras partidárias em seus atos.

O esmagamento da classe média

De uma forma bem simplista podemos afirmar que as políticas assistencialistas reduziram o número de miseráveis no Brasil. Não há como negar que o antes miserável agora tem um mínimo para viver. Chamamos isso de redistribuição de renda.

Qualquer um que já frequentou aulas de economia sabe que o dinheiro não é infinito. Cada país tem um número de dinheiro impresso e distribuído.

Ainda de forma simples, se alguém tem pouquíssimo dinheiro e o governo quer deixa-lo menos pobre, há dois caminhos: imprimir mais notas (o que desvaloriza o valor de todas já impressas) ou tirar dinheiro de quem tem para dar a quem não tem. Simples assim!

Todo governo evita ao máximo o ato de imprimir mais notas, sendo assim, é preciso fazer uma redistribuição. O caminho ideal seria reduzir os gastos do governo, cortando excessos em folhas de pagamento e custos com manutenção, e utilizar essa soma para fazer investimentos que reduzissem a diferença econômica de sua população.

Na prática, o governo brasileiro tomou outro caminho. Preferiu sobretaxar a classe média de forma assustadora. Pagamos impostos por tudo e várias vezes pelo mesmo produto ou serviço.

Como não houve corte nos gastos, por mais que impostos sejam arrecadados, a conta não fecha e o fornecimento dos serviços públicos fica comprometido.

Educação de baixa qualidade, hospitais sem leitos disponíveis e com poucos médicos, segurança pública sofrível, políticas ineficientes de desenvolvimento social. Algo lhe soou familiar?

Eventos esportivos: a gota que faltava

Contrariando a máxima de que o povo precisa de pão e circo, os eventos esportivos que o Brasil se dispôs a sediar serviram como estopim para que essa jovem classe média percebesse que o futuro reservado a ela não é dos melhores.

Os gastos suntuosos com estádios enquanto há prioridades em aberto afrontam a juventude, que já não aceita tudo de mão beijada e que tem na internet um excelente canal para troca de ideias e conhecimento.

O governo mantém certo controle sobre a imprensa, sendo o principal investidor em publicidade através de estatais, órgãos públicos e outras empresas de natureza mista. Contudo, a internet está livre dessa influência e os jovens, cansados de esperar pelo país do futuro, resolveram tomar uma atitude.

Obviamente as manifestações têm muito a evoluir, principalmente do ponto de vista pragmático. Sem lideranças e propostas tangíveis, o movimento tende a se dissipar. Se nos próximos dias o processo todo amadurecer, deixaremos de estar deitados eternamente em berço esplêndido e conheceremos o gigante pela própria natureza.

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About Marcelo Vitorino

Estrategista de comunicação digital, que atua como consultor para instituições públicas, privadas e de terceiro setor.

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  1. O direito das manifestações... mas por que agora? - Teoria Digital - 19/06/2013

    […] Veja o ótimo post do site Pérolas Políticas, escrito por Marcelo Vitorino, que dá uma ideia mais concreta sobre os reais motivos por trás destes eventos (ou leia na íntegra aqui). […]

  2. O "rolêzinho" maniqueísta dos R$ 0,20 - Pérolas Políticas - 14/01/2014

    […] Sou totalmente favorável às manifestações que tenham princípios legais e legítimos. Novamente afirmo, assim como fiz no meio do ano passado, não é através do desrespeito ao próximo que se obtém direitos. […]

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